O que acontece depois do diploma?

Em artigo de opinião, Janguiê Diniz, presidente da ABMES, analisa a importância do acompanhamento dos egressos do ensino superior e mostra como os dados de empregabilidade e a revisão dos instrumentos de avaliação do Inep podem guiar políticas públicas e aprimorar currículos acadêmicos

Janguiê Diniz

07.11.2026

O que acontece depois do diploma?

Concluir um curso superior é o sonho de milhões de brasileiros. Seja pelo desejo de exercer uma profissão, seja por vislumbrar na graduação um caminho para melhorar de vida, conquistar um diploma é uma meta cada vez mais perseguida. Contudo, uma reflexão ainda pouco incipiente no país diz respeito ao que acontece depois da formatura. Essa é uma agenda que precisa de mais atenção tanto por parte das instituições de educação superior quanto dos gestores das políticas educacionais.

O fim da graduação representa o início de uma nova etapa na vida dos egressos, que demanda políticas públicas específicas. Saber quantos trabalham, em quais atividades estão inseridos, quanto recebem e como suas carreiras evoluem permite compreender a relação entre a formação oferecida e as oportunidades profissionais. Para as instituições de educação superior, por exemplo, acompanhar essas trajetórias é uma forma de avaliar decisões acadêmicas e identificar dificuldades que os indicadores de matrícula e conclusão, isoladamente, não revelam.

Perguntas centrais e os dados do IASE 2026

Uma política consistente de acompanhamento deve começar com perguntas precisas:

Qual percentual dos formados atua na área do curso?

Quanto tempo leva para conquistar essa posição?

Houve mudança de função ou aumento de renda durante a graduação?

Quem trabalha em outro segmento fez essa escolha ou encontrou obstáculos para ingressar na profissão?

As respostas ajudam a distinguir percursos diferentes e a direcionar orientação de carreira, formação continuada e aproximação com empregadores.

O Indicador ABMES/Symplicity de Empregabilidade (IASE) 2026 oferece um exemplo das informações que esse acompanhamento pode produzir. Entre os 10.317 egressos de 99 instituições participantes:

85,2% estavam trabalhando cerca de 15 meses após a formatura.

67,2% atuavam na área de formação.

9,4% trabalhavam em um segmento diferente por escolha própria.

81,9% foi o crescimento nominal da remuneração declarada pelos participantes que já trabalhavam ao ingressar na graduação, saltando de R$ 3.129 para R$ 5.693.

Para quem escolhe um curso, informações desse tipo permitem avaliar as possibilidades com maior clareza. Para a instituição, oferecem subsídios para revisar currículos, fortalecer experiências práticas e identificar demandas de atualização. Para os gestores públicos, ajudam a orientar políticas de acesso, permanência e inserção profissional, avaliar os resultados dos investimentos em educação superior e identificar desigualdades que exigem ações específicas. A utilidade aumenta quando os dados são separados por curso, região, perfil dos estudantes e tempo de conclusão.

A revisão dos instrumentos de avaliação do Inep

Nesse sentido, a revisão dos instrumentos de avaliação de cursos e instituições conduzida pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) abre espaço para fortalecer o acompanhamento dos egressos. A proposta submetida à consulta pública prevê critérios mais detalhados para verificar tanto o monitoramento da trajetória dos formados quanto o uso dessas informações no aprimoramento da formação oferecida.

Entre os critérios previstos estão:

Manutenção de um programa institucional com banco de dados e integração com bases públicas.

Realização de pesquisas periódicas sobre inserção profissional, satisfação com o curso e retorno dos investimentos formativos.

Ações de educação continuada, mentoria e participação dos egressos na governança institucional.

A revisão dos instrumentos prevê ainda que os Núcleos Docentes Estruturantes (NDE) incorporem o acompanhamento da inserção profissional à revisão dos projetos pedagógicos, aproximando a coleta de informações das decisões sobre o ensino. Uma dificuldade recorrente relatada pelos formados pode motivar mudanças nas atividades práticas, novas parcerias ou ações de desenvolvimento profissional.

Rigor metodológico e visão de longo prazo

Trata-se, portanto, de uma agenda que exige continuidade e rigor metodológico. Em seminário promovido pelo Inep em outubro, pesquisadores discutiram a integração entre o Censo da Educação Superior e a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), além de experiências institucionais de acompanhamento. Articular registros administrativos e escuta dos egressos pode ampliar o conhecimento sobre emprego, empreendedorismo e renda, preservadas as características e limitações de cada fonte.

"A entrega do diploma encerra a etapa acadêmica, mas deixa perguntas que instituições e gestores públicos precisam continuar fazendo. É nesse compromisso com o percurso de quem se formou que a educação superior pode encontrar caminhos para ampliar o alcance dos seus resultados."

A entrega do diploma encerra a etapa acadêmica, mas deixa perguntas que instituições e gestores públicos precisam continuar fazendo. Onde os formados encontram oportunidades? Quais barreiras enfrentam para exercer a profissão? Como suas condições de trabalho evoluem? Manter essas perguntas na agenda exige acompanhamento contínuo e disposição para agir sobre os problemas identificados.

logo

INBOX

Aprenda algo novo todos os dias.
Assine gratuitamente as newsletters da Adnews.

Digite o seu melhor email