JÁ POSSO SURFAR O HYPE DO MACACO PUNCH?

A comunicação digital virou um morro de Sísifo: todo dia empurramos a pedra da “postagem obrigatória”, só para recomeçar amanhã. E chamar isso de presença

Marco Franzolim

24.04.2026

JÁ POSSO SURFAR O HYPE DO MACACO PUNCH?

Um dos aspectos de que menos gosto na comunicação digital moderna é a obrigação velada de as marcas pegarem carona nos assuntos do momento. O que começou como a apropriação de trends alinhados a posicionamentos, crenças, produtos, serviços e personas dessas marcas ganhou uma dose de ansiedade e perdeu o sentido. Basta uma scrollada para notar a substituição de significado na presença digital por uma tentativa insípida de participar de discussões que, muitas vezes, não se conectam de maneira alguma com a empresa.

Parece que virou obrigatório para qualquer marca produzir peças online genéricas, tentando desesperadamente embarcar em conversas pueris e altamente descartáveis — como a última briga no BBB, a mais nova polêmica de pseudocelebridades ou alguma expressão cotidiana banal que, repetida à exaustão, vira bordão. Afinal, se algo virou assunto, é obrigatório participar — ainda que da forma mais rasa, simplória e distante dos próprios manuais de posicionamento de marca. E, nesse cenário, chegamos ao trend do macaco Punch.

Sou formado em Marketing, fundador e CEO da MonkeyBusiness, empresa especializada em criar apresentações profissionais, vídeos e animações corporativas. Nosso branding é centrado na figura de um macaco magenta. E confesso que, ao me deparar com a história do macaco Punch, a primeira ideia que me veio foi: “Como posso aproveitar isso na comunicação da MonkeyBusiness?”

Assim, com esse objetivo sórdido em mente, fui antes entender o que estava acontecendo. E a história me quebrou emocionalmente. Fiquei sinceramente triste com as imagens; indignado com os outros macacos, com os tratadores, com a sociedade símia moderna. Essa sensação só se atenuou quando o Punch fez suas primeiras amizades e foi, finalmente, acolhido. Nesse momento, meu coração se tranquilizou — ao custo de colocar meu ímpeto marqueteiro imediatista em xeque.

Passado o frisson, a provocação que me bateu forte — e que eu gostaria de compartilhar aqui — é: essa corrida pavloviana para nos apropriarmos, ou ao menos participarmos como marca, de toda e qualquer discussão online é realmente eficiente? Em que momento essa estratégia de comunicação digital rasa e genérica, que não constrói nada para a empresa, virou regra? E como isso se potencializa com o advento da IA, quando qualquer ideia (ruim) tem o poder de virar imagem em poucos segundos e pronto: “comunicação do dia feita”.

Ou seja: se a minha marca, na mesma semana, postar uma solidariedade ao macaco Punch, fizer um comentário engraçadinho sobre alguma notícia com alto número de compartilhamentos, sinalizar virtude em qualquer questão social descartável e, na sexta, publicar um meme genérico simplesmente trocando um elemento por um asset do meu branding… podemos mesmo esperar resultados concretos?

No fim, depois dessa jornada de autocrítica, me parece que nos deparamos com um trabalho diário de Sísifo: empurramos uma pedra pesada de ansiedade morro acima — o morro da comunicação inútil — apenas para vê-la rolar de volta e recomeçar no dia seguinte. A necessidade de “participar” turva nossa visão estratégica, e aceitamos, sem pestanejar, a maldição dessa tarefa repetitiva, mesmo com planejamentos de comunicação, manuais de marca e até o bom senso dizendo o contrário. E eu, nessa dualidade entre a ansiedade e o resultado, torço para que o macaco Punch seja aceito e feliz — e para que nós, humanos do marketing, sejamos mais pragmáticos e eficientes na hora de nos comunicar.

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