A falta de atenção crônica e o audiovisual cada vez mais próximo da era do rádio
Em uma entrevista recente, Matt Damon contou que a Netflix tem pedido que roteiros de filmes repitam o plot “três ou quatro vezes nos diálogos”, porque o público está de olho no celular enquanto assiste. É a versão 2026 da placa “preste atenção na história”.
28.04.2026

A fala do Damon na entrevista com Joe Rogan virou meme, mas não veio do nada. O que ele descreve é um conjunto de notas de plataforma. Tais como uma grande ação grande logo nos primeiros minutos, reexplicação de conflitos ao longo do filme, diálogos que relembram o que já vimos para “segurar” quem está vendo de forma fragmentada. Em paralelo, outras matérias e reportagens com roteiristas de streaming relatam pedidos parecidos. As plataformas pedem roteiros “menos sutis”, com mais explicação e menos subtexto, para atender ao espectador que assiste enquanto rola o feed. Ou seja, até o audiovisual de entretenimento vem correndo atrás de um público que não se comporta mais como plateia, mas como usuário multitarefa.
Os números ajudam a entender a dimensão dessa nova realidade: 83 a 88% dos espectadores usam um segundo dispositivo enquanto assistem TV ou streaming. Ao passo que estudos sobre second-screen viewing mostram que essa multitarefa aumenta a carga cognitiva total, reduzindo lembrança de fatos importantes para a história e a compreensão de conteúdos mais complexos. Ou seja, a cabeça do público está dividida. E, para não perder esse novo público, o roteiro passa a repetir, expor, explicar, mastigar. Dessa forma, a experiência audiovisual vai se aproximando do rádio de antigamente, em que as rádionovelas precisavam reapresentar personagens, recapitular conflitos e insistir em ganchos para quem ligava o aparelho no meio da história ou para aquele que não podiam acompanhar a trama todos os dias da semana.
Esse “retorno ao rádio” que estamos vivendo no ponto de vista do conteúdo audiovisual é porque o modelo da radionovela trabalhava com alguns princípios muito claros: tramas relativamente simples, foco em poucos conflitos centrais, uso intenso de repetição e de sons marcantes para sinalizar reviravoltas (como também tínhamos no futebol do rádio). A lógica era: o ouvinte está cozinhando, costurando, cuidando de criança; ele entra e sai da história ao longo do dia. Hoje, o espectador faz o mesmo com as séries, só que com um smartphone na mão. Assim, o que muda é a tela, não o comportamento. E, dessa forma, a indústria está só reaprendendo a falar com um público que escuta mais do que vê.
Na comunicação corporativa, esse cenário bate direto. Vídeos institucionais, animações de produto, treinamentos e apresentações estão sendo consumidos no mesmo contexto em que as séries são vistas: notebook aberto, celular vibrando, abas múltiplas. Portanto, se o entretenimento está simplificando estrutura, por que a peça corporativa ainda se comporta como se tivesse a atenção plena de todo mundo? Aqui na MonkeyBusiness, a gente já desenha roteiros assumindo a “atenção quebrada” como regra. Pensamos em colocar poucas ideias por peça, repetição consciente dos pontos críticos e uso de recursos visuais e sonoros que marcam as informações que não podem se perder.
Claro que esse movimento levanta um medo legítimo: estamos “emburrecendo” o audiovisual? A resposta mais honesta que eu consigo chegar agora é: depende do que você faz com essa limitação. Há um risco real de simplificarmos tanto os conteúdos, que o audiovisual perca criatividade. Mas também existe a chance de aprender com as técnincas do rádio e com a novela. Ou seja simplificar a superfície para proteger a complexidade no fundo. Então, acredito que consigamos repetir os pontos-chave da trama sem matar a sutileza das relações. Sim, é um novo formato de se escrever roteiros, mas um formato que pode ganhar pontos criativos mesmo nessa nova adversidade.
Para concluir, se o streaming está pedindo três ou quatro reforços do mesmo plot point, talvez o recado para as marcas seja menos “faça igual” e mais: assuma o contexto real de atenção. Isso porque nós sabemos que roteiros de vídeos, animações e apresentações podem trabalhar com camadas: na primeira, mensagens simples, recapitulações e metáforas claras. Já nas camadas de apoio, documentos, relatórios e detalhes técnicos. Assim você garante que, mesmo se a pessoa olhar o celular na metade, ela ainda entenda o essencial. E quem quiser mergulhar mais fundo, que bom! Ainda existe espaço para complexidade. E assim como era do rádio não matou a literatura, a era do second screen não precisa matar o audiovisual, desde que a gente aceite que contar histórias hoje passa, inevitavelmente, por negociar com a distração.
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