Stablecoins avançam no B2B, mas pagamento internacional ainda enfrenta câmbio e regulação

Transações entre empresas já representam cerca de US$ 226 bilhões anuais, mas velocidade em blockchain não elimina custos de conversão, liquidez e exigências regulatórias

Adnews

03.11.2026

Stablecoins avançam no B2B, mas pagamento internacional ainda enfrenta câmbio e regulação

O Pix mudou a expectativa dos brasileiros em relação a pagamentos: transferir dinheiro e receber a confirmação em poucos segundos passou a fazer parte da rotina.

No comércio internacional entre empresas, porém, a experiência ainda envolve moedas diferentes, instituições financeiras, conversão cambial, liquidez e regras específicas de cada mercado.

É nesse cenário que as stablecoins começam a ganhar espaço como possível infraestrutura para determinados pagamentos internacionais.

B2B concentra maior parte dos pagamentos com stablecoins

Uma análise publicada pela McKinsey em parceria com a Artemis Analytics estimou que os pagamentos efetivamente realizados com stablecoins alcançaram aproximadamente US$ 390 bilhões em ritmo anualizado, tomando dezembro de 2025 como referência.

Desse total, cerca de US$ 226 bilhões correspondem a pagamentos entre empresas, fazendo do B2B a maior categoria de uso identificada pela pesquisa. McKinsey & Company

Apesar do crescimento, a participação ainda é pequena.

Segundo a McKinsey, os pagamentos B2B com stablecoins equivalem a aproximadamente 0,01% do volume global de pagamentos entre empresas. McKinsey Brasil

A própria análise alerta que grandes volumes registrados em blockchain não devem ser interpretados automaticamente como pagamentos. Negociação de ativos, movimentações internas e operações automatizadas também compõem grande parte das transações on-chain. McKinsey & Company

Transferência rápida não significa pagamento concluído

Uma stablecoin pode permitir que um ativo digital saia de uma carteira e chegue a outra em pouco tempo.

Para uma empresa, no entanto, isso é apenas parte da operação.

Se um fornecedor precisa receber recursos em sua moeda local, entram em cena conversão, spread cambial, disponibilidade de liquidez, tarifas da plataforma, eventuais tributos e acesso ao sistema financeiro do país de destino.

Por isso, a eficiência precisa ser medida pelo valor líquido recebido e pelo prazo total até a disponibilidade dos recursos, e não apenas pela velocidade da blockchain.

Comparação com Pix tem limites

O Pix funciona dentro de uma infraestrutura doméstica, em reais e sob um mesmo ambiente regulatório.

Uma operação internacional com stablecoins pode envolver participantes em diferentes jurisdições e prestadores de serviços responsáveis pela entrada e saída entre moeda fiduciária e ativo digital.

Por isso, stablecoins podem aproximar determinados fluxos da experiência de rapidez associada ao Pix, mas não reproduzem automaticamente a mesma simplicidade.

Banco Central incluiu operações com ativos virtuais no mercado de câmbio

No Brasil, a discussão também passa pela regulamentação.

A Resolução BCB nº 521, publicada em novembro de 2025, incluiu determinadas atividades realizadas por prestadores de serviços de ativos virtuais no mercado de câmbio e estabeleceu regras para pagamentos e transferências internacionais com esses ativos. Banco Central

A norma também estabelece obrigações relacionadas à identificação da finalidade da operação, informações sobre pagadores e recebedores e prestação de dados ao Banco Central.

eFX tem restrição específica

Outra mudança importante entrou em vigor em 1º de outubro de 2026.

A Resolução BCB nº 561 passou a determinar que o pagamento ou recebimento entre um prestador de eFX e sua contraparte no exterior seja realizado por operação de câmbio ou movimentação em conta em reais de não residente, com vedação ao uso de ativos virtuais nesse fluxo específico. Banco Central

A regra não significa uma proibição geral de stablecoins em pagamentos internacionais, mas mostra que o modelo operacional precisa ser analisado antes de apresentar a tecnologia como solução universal.

Empresas precisam olhar além da tecnologia

Para o departamento financeiro, a adoção depende também de processos que não estão necessariamente na blockchain.

Identificar o beneficiário, vincular o pagamento a uma fatura, documentar a conversão, realizar conciliação contábil e atender requisitos regulatórios continuam sendo etapas relevantes.

Nesse sentido, a velocidade só se transforma em eficiência quando vem acompanhada de previsibilidade, integração e controle.

As stablecoins podem reduzir atritos em determinados corredores internacionais, mas o impacto real para empresas será percebido quando transferência, conversão, recebimento e conformidade funcionarem como uma única operação.

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