O salto de R$ 1,3 bilhão da WE: fusão estratégica e foco em negócios consolidam expansão da agência independente no Brasil

À frente da operação há seis meses, Maurício Almeida lidera equipe de 282 colaboradores e aposta em modelo full service para responder como manter relevância em um mercado que muda rápido demais

O salto de R$ 1,3 bilhão da WE: fusão estratégica e foco em negócios consolidam expansão da agência independente no Brasil
Mauricio Almeida- Foto de divulgação

À frente da WE há seis meses, Maurício Almeida lidera uma operação que movimenta 1,3 bilhão de reais em mídia, reúne 282 colaboradores e atende marcas que hoje ajudam a redesenhar comportamento, consumo e tecnologia no Brasil. Em um momento em que carros elétricos deixam de ser promessa, plataformas asiáticas avançam no mercado brasileiro e cidades começam a testar veículos autônomos nas ruas, a WE chega aos 24 anos tentando responder uma pergunta cada vez mais complexa: como manter a relevância enquanto tudo muda rápido demais?

Essa busca por respostas passa por um momento de profunda transformação interna. Após concluir um processo de fusão que unificou as operações da WE e da LVL, duas marcas pertencentes ao mesmo grupo, a nova estrutura consolidou-se entre as maiores agências independentes do país. O movimento estratégico, estruturado ao longo de quatro meses de planejamento sigiloso, colocou o Managing Director Maurício Almeida na liderança geral do negócio a partir de dezembro de 2025, após ter liderado a LVL desde fevereiro daquele ano.

"A mudança em si, apesar de as duas agências serem do mesmo grupo, eram duas agências que tinham culturas diferentes, até processos, modelo operacional diferente", relembra Maurício Almeida. Enquanto a LVL focava em um modelo sob demanda para cada cliente, a WE historicamente se destacava por estruturar marcas que não eram anunciantes frequentes ou que estavam desembarcando no país. "A fusão foi muito complementar no ponto de vista de ganho de negócio e até de conhecimento interno."

A sinergia entre as operações acelerou o ritmo dos negócios. No primeiro quadrimestre de 2026, a receita registrou uma evolução entre 15% e 20% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Esse avanço é impulsionado pelo aumento do escopo de contas da casa e por um aproveitamento impecável no mercado. "De dezembro para cá a gente tem 100% de conversão nos “pitch” e conversas que a gente teve no mercado. Então, isso traz mais confiança pra gente que tomamos a decisão correta." Para sustentar essa nova estrutura e manter a liderança próxima ao dia a dia dos clientes, a agência reforçou seu time sênior. Rui Branquinho chega para somar o comando criativo e de reputação com Armando Araújo, ambos atuando como CCOs.

Autonomia de capital nacional e o motor asiático

Com mais de 25 anos de carreira e passagens por grandes grupos do mercado como Publicis, DM9, Talent e F/Nazca, o executivo traz sua bagagem originária da área de mídia para moldar a gestão da WE. Ele destaca que o status de agência independente de capital 100% nacional é uma das maiores vantagens para competir de igual para igual com as grandes holdings globais. "Por sermos independentes, uma agência de capital próprio, capital 100% nacional, o todo o processo de tomada de decisão, ele é muito rápido, é muito menos burocrático. Qualquer decisão de investimento que a gente precise, de ajuste estrutural, de buscar algum “capability” que a gente não tenha, é só uma decisão que basicamente eu subo uma escada e decido com os sócios."

Essa agilidade operacional foi o fator determinante para transformar a WE em um porto seguro para gigantes asiáticas que precisavam romper barreiras culturais e preconceitos de mercado no Brasil. A agência coordenou as estratégias de comunicação que transformaram a Shopee (de Singapura) em líder de varejo eletrônico em termos de usuários únicos e aplicativos instalados, e a BYD (da China) em referência no setor automotivo. Em abril de 2026, a montadora chinesa liderou o varejo da indústria de eletrificação, superando concorrentes históricos.

O desafio com a BYD envolve a tradução de sua tecnologia e o apoio à sua estratégia de brasilidade, especialmente diante da expansão da BYD no Nordeste, onde a marca conta com uma fábrica em Camaçari, na Bahia. "A BYD teve muito esse cuidado quando chegou no Brasil para se adaptar à cultura brasileira. Então, quando você fala do investimento no Nordeste, nós temos a fábrica na Bahia e é natural que se olhe com um impacto social dentro da onde você está produzindo o volume de automóveis no Brasil", explica Almeida, destacando o valor de devolver algo para a sociedade e sair do eixo Rio-São Paulo. Essa expertise atraiu outras marcas do continente, como a Jovi (fabricante de celulares que na China opera como Vivo Mobile Communications) e a Haier (gigante de eletrodomésticos premium que inicia operações no país). Outro movimento de destaque na casa é a chegada da Keeta, aplicativo de delivery que inicia sua trajetória em um território onde a concorrência já estava fortemente estabelecida.

Hiper Fragmentação e a inteligência artificial na cadeia produtiva

O crescimento da WE acontece em um contexto desafiado por uma intensa fragmentação de meios e canais de consumo. Diante dessas novas disputas globais por atenção, a WE se posiciona como uma agência que tem em negócios a sua fortaleza, focada em parcerias de longo prazo com marcas como EMS e Cacau Show, onde o trunfo é manter canais diretos de comunicação com o alto comando das corporações para trabalhar com previsibilidade.

Para que a criatividade não seja atropelada pelo volume de dados gerado por essa fragmentação, a WE adota um processo full service totalmente integrado. Na visão da liderança, os dados entram em toda a cadeia produtiva, servindo de insumo para o planejamento, mídia, atendimento e criação. "A criatividade deve permear todas as áreas da agência. A gente não entende que o departamento de criação é necessariamente o único responsável pela ideia. Como a gente trabalha de uma forma muito integrada, com processos claros, touch points durante o trabalho onde a troca entre os departamentos ela é muito rica, às vezes uma ideia ela não vem necessariamente da criação, ela pode vir de uma ideia de mídia, um formato de mídia dentro de um insight de planejamento."

Essa filosofia de integração dita o ritmo do uso da inteligência artificial dentro da agência. Embora a WE desfrute da liberdade de ser independente para desenvolver ferramentas proprietárias que já estão em fase beta de testes e modelagem, Almeida é categórico sobre os limites da tecnologia. "A gente entende que inteligência artificial ela é meio, ela não é fim. Ela é extremamente importante no ganho de velocidade, automação de processos, de ganho de conhecimento do que antes você fazia de uma maneira manual. Mas o que é muito claro para a gente é que o que faz diferença mesmo na aplicação de inteligência artificial é a curadoria humana."

O executivo complementa afirmando que, embora a camada mais repetitiva e produtiva da criação funcione perfeitamente com a tecnologia, a essência do negócio permanece analógica. "A ideia humana ainda é preponderante e fundamental em cima disso tudo. Qualquer trabalho de mídia ou mesmo planejamento que esteja ancorado ou tenha como pilar um trabalho de inteligência artificial, a curadoria humana, a conexão dos pontos, o contexto, momento do cliente, a tradução do output da inteligência artificial com uma visão humana, ela ganha muito mais valor do que ela por si só."

Os números de investimento e estrutura impressionam, mas é na interpretação dessas transformações culturais e tecnológicas que a conversa realmente ganha força. De olho no futuro próximo, a WE prepara suas próximas entregas, o que inclui a presença confirmada no Festival Internacional de Criatividade de Cannes em junho de 2026 com os cases desenvolvidos para a campanha de moedas da BYD, além do anúncio iminente de novos clientes que devem se materializar oficialmente nos próximos dias. "Nós não somos uma agência que sai falando muito ou qualquer coisa no mercado. Acho que vocês vão ver cada vez mais o trabalho, as conquistas, a WE cada vez mais se fortalecendo", conclui Almeida.

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