O brinde é a “cereja do bolo” do evento, e as marcas estão finalmente percebendo isso
Com o mercado de eventos batendo recordes no Brasil, o brinde deixa de ser a rubrica menor da planilha para virar parte da experiência que o público leva para casa, avalia Ana Lucia Calfat, sócia da Solução Gifts
28.07.2026

O evento pode ter tido a melhor música, a gastronomia mais caprichada e o networking mais valioso da temporada. Mas, quando as luzes se apagam, o que sobra na mão do convidado costuma ser um objeto só: o brinde. Essa peça, muitas vezes tratada como mero detalhe, é o que continua carregando a marca depois que o evento acaba. “O evento pode ter sido o máximo em qualidade musical, gastronômica, em relacionamento, mas o brinde é o que o cliente vai levar para casa. E, se for de qualidade e útil, a marca vai ser lembrada por muito tempo”, resume Ana Lucia Calfat, sócia da Solução Gifts, empresa com mais de 20 anos no mercado de brindes corporativos.
A avaliação chega num momento de força inédita para o setor. Segundo o III Dimensionamento do Setor de Eventos no Brasil 2024/2025, maior estudo já feito sobre o mercado e conduzido pelo Observatório da Indústria do SENAI Ceará com apoio do SEBRAE e da ABEOC Brasil, os eventos movimentaram R$ 813,5 bilhões no país em 2024. O valor equivale a 4,6% do PIB nacional e representa um crescimento de 355,9% na comparação com o primeiro levantamento, feito em 2001/2002. Só no primeiro semestre de 2025, de acordo com o Barômetro da UBRAFE em parceria com a SPTuris, foram realizados 612 eventos de grande porte, alta de 19% sobre o mesmo período do ano anterior. Desses, 69% eram corporativos.
É nesse ambiente que a Solução Gifts diz ter crescido junto com o mercado. “Acompanhamos desde os pequenos eventos internos das empresas até convenções, lançamentos de produtos, feiras de negócios, convenções de vendas e premiações, que se multiplicaram no mundo todo”, conta Ana Lucia. “No pós-pandemia, os eventos se tornaram cada vez mais necessários, porque é neles que o funcionário da empresa e até o cliente têm o maior contato com as marcas.”
O apetite das marcas por esse contato presencial aparece nos números. De acordo com o Anuário Brasileiro de Live Marketing 2024-2025, os investimentos em experiências de marca ultrapassaram R$ 100 bilhões em 2024 no Brasil, o maior patamar desde o início da medição. É um resultado que reflete o ressurgimento do setor depois da paralisia de 2020. No mesmo estudo, a compra de brindes e gifts aparece entre os itens que compõem esse investimento.
A cereja e a barreira do orçamento
O problema, observa a executiva, é que nem sempre o brinde recebe a atenção e a verba que merece dentro do projeto. “Na planilha de organização de um evento, o orçamento do brinde normalmente fica
com a menor verba, porque a maior parte vai para a criação e a execução”, afirma. Na prática, o valor que sobra por peça acaba não dando para comprar algo interessante, útil e à altura da marca.
Nesses casos, diz Ana Lucia, a recomendação pode soar contraintuitiva. “Às vezes é preciso avaliar se dar um brinde é eficaz ou se é melhor não dar nada, para não prejudicar a experiência que o evento já entregou.” O raciocínio é simples: um brinde ruim acaba associando a marca justamente à sensação que ela queria evitar.
Não distribuir brinde algum, no limite, é uma decisão menos drástica do que parece. Um item frágil, genérico ou distante da identidade da marca pode contaminar a lembrança de um evento que funcionou em tudo o mais, o oposto do que a ação pretendia. Para ela, a escolha do brinde deveria entrar no planejamento junto com palco, buffet e atrações, e não ficar para o fim, quando é o que sobrou de verba que dita o que dá para comprar.
Ainda assim, há evidências de que o item bem escolhido se paga. Uma pesquisa de consumo da PPAI (Promotional Products Association International), maior associação global do setor, mostrou que, quando estimulados com opções, nove em cada dez consumidores lembram corretamente a marca estampada num brinde promocional. Mesmo sem nenhum estímulo, 83% recordam de pelo menos uma marca.
Um brinde que se paga com o tempo
O argumento de retorno fica mais claro quando se olha para a vida útil do item. Um estudo da PPAI feito com a ASI e divulgado em fevereiro de 2026 calculou que uma campanha de brindes gera, em média, 0,39 tonelada de CO2 equivalente. É mais de 20 vezes menos que uma campanha de TV e menos da metade da emissão de uma campanha digital. A explicação está na durabilidade: como o produto físico segue sendo usado e exibido por meses ou anos, o custo por impressão se dilui. Somando tudo, o impacto de carbono por impressão memorizada de um brinde é oito vezes menor que o da publicidade digital.
“Compare uma coisa que você vê no TikTok por dez segundos com algo que você tem num moletom por dez anos”, resume Theo Drijver, diretor de clima da 51toCarbonZero, consultoria britânica responsável pela pesquisa. É essa permanência que transforma um bom brinde em mídia de longo prazo, desde que ele seja útil o bastante para ganhar espaço no dia a dia de quem recebe. Quando um item “ganha lugar na vida da pessoa”, aponta o estudo, deixa de parecer propaganda e passa a funcionar como utilidade.
A virada de chave
Para Ana Lucia, o cenário começa a mudar, ainda que só para algumas empresas por enquanto. “Já vemos uma boa mudança. Para algumas marcas, o brinde passou a ser considerado uma experiência com importância relevante: ele é escolhido, planejado e viabilizado”, diz. “Hoje, no mundo todo, e no Brasil, vemos marcas investindo no evento e principalmente nas experiências e nos brindes personalizados criativos, que deixam o cliente encantado.”
A virada acompanha um comportamento mais amplo do consumidor. Para Julio Feijó, editor do Anuário Brasileiro de Live Marketing, o presencial e o digital deixaram de competir entre si. “A experiência ao vivo é a melhor forma de marcas e produtos obterem atenção das pessoas, e o digital, principalmente pelas redes sociais, amplifica organicamente. É a tempestade perfeita”, afirmou. Nesse arranjo, o brinde ganha um papel a mais: é o objeto que o convidado fotografa, posta e leva para casa, prolongando o evento muito depois do encerramento. É nessa direção que a Solução Gifts vem concentrando o trabalho, segundo a sócia: garimpar produtos personalizados que conversem com a essência de cada marca, com qualidade, utilidade e logo bem aplicado. “Essa procura por sugestões, ideias e inovação faz parte da nossa história. Visitamos feiras internacionais, fazemos pesquisa de mercado, buscamos fornecedores, testamos materiais, impressões e funcionalidade, tanto de produtos importados quanto nacionais, para oferecer a melhor opção”, relata.
O recado final é sobre expectativa. Com tanta tecnologia na palma da mão do consumidor, o brinde precisa surpreender. “Todo mundo que vai a um evento espera algum brinde, na entrada, durante ou no fim”, afirma Ana Lucia. “O mercado sempre evoluiu, mas agora mais do que nunca: é preciso um brinde que encante, que facilite a vida e traga um ‘UAU’ quando recebido.”
E ainda há espaço para essa profissionalização avançar. O próprio III Dimensionamento projeta que o setor de eventos pode chegar a R$ 1,565 trilhão em faturamento até 2035, com expansão média de 6,1% ao ano. Num mercado desse tamanho, e cada vez mais concorrido, disputar a atenção do público em meio a tantos estímulos tende a valorizar quem trata cada ponto de contato como parte da estratégia. O brinde entra como um deles, e não como sobra de planilha.
Fontes da reportagem
● III Dimensionamento do Setor de Eventos no Brasil 2024/2025 (Observatório da Indústria SENAI-CE, SEBRAE e ABEOC Brasil), via ABEOC: https://abeoc.org.br/2026/05/07/eventos-movimentaram-r-8135-bilhoes-no-brasil-em-2024-e-reforcam-protagonismo-na-economia-nacional/
● III Dimensionamento, dados de sustentabilidade e projeção até 2035 (síntese): https://doity.com.br/blog/iii-dimensionamento-setor-eventos-brasil/
● Barômetro UBRAFE/SPTuris, 1º semestre de 2025, via Promoview: https://www.promoview.com.br/pesquisa-ubrafe-setor-eventos-crescimento-2025/
● Anuário Brasileiro de Live Marketing 2024-2025, via Promoview: https://www.promoview.com.br/marcas-investem-100-bi-anuario-live-marketing-destaque-news/
● PPAI, 2016 Consumer Study (lembrança de marca): https://www.ppai.org/media-hub/nine-in-10-consumers-remember-branding-on-promotional-products-study-finds/
● PPAI/ASI, estudo de impacto de carbono (fev/2026): https://www.ppai.org/media-hub/joint-ppai-asi-study-finds-promo-among-the-lowest-carbon-impact-advertising-channels)
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