Copa de 2026 amplia disputa entre marcas por atenção em ambiente de mídia fragmentado

Especialistas ouvidos pelo Adnews apontam que o desafio das empresas é transformar audiência em confiança, relevância e valor de longo prazo

Copa de 2026 amplia disputa entre marcas por atenção em ambiente de mídia fragmentado
Cerimônia de abertura da Copa do Mundo nos Estados Unidos, no Estádio de Los Angeles Jamie Squire/ Getty Images

A Copa do Mundo de 2026 já movimenta não apenas torcedores e seleções, mas também uma disputa intensa entre marcas por atenção, relevância e conexão com consumidores. Realizado nos Estados Unidos, Canadá e México, o torneio reúne pela primeira vez 48 seleções e 104 partidas, ampliando o inventário comercial disponível para patrocinadores, emissoras, plataformas digitais e anunciantes.

O impacto do evento também é sentido no Brasil. Pesquisa da Kantar mostra que 77% dos consumidores brasileiros acompanham ou demonstram interesse pela competição. O levantamento revela ainda que a TV aberta segue como principal plataforma para assistir aos jogos, alcançando 73% do público interessado, seguida por TV por assinatura (39%), streaming (31%) e redes sociais (23%). Os dados ajudam a explicar por que a Copa continua sendo um dos principais territórios de comunicação para marcas que buscam alcance em larga escala.

Em um cenário marcado pela fragmentação da audiência e pela multiplicação de canais digitais, a competição se mantém como um dos poucos eventos capazes de concentrar a atenção de bilhões de pessoas simultaneamente. Segundo relatório da FIFA sobre a Copa do Mundo do Catar, realizada em 2022, cerca de 5 bilhões de pessoas tiveram contato com o torneio por meio de diferentes plataformas e formatos de mídia.

Os números ajudam a explicar o interesse crescente dos anunciantes. Segundo a FIFA, a entidade projeta arrecadar US$ 13 bilhões no ciclo comercial de 2023 a 2026, incluindo receitas de transmissão, marketing, hospitalidade e venda de ingressos. Desse total, cerca de US$ 2,8 bilhões devem ser provenientes de acordos de marketing e patrocínio ligados ao torneio.

Entre os parceiros globais da FIFA para a Copa de 2026 estão Adidas, Coca-Cola, Visa, Hyundai-Kia, Qatar Airways, Lenovo e Aramco. A entidade também ampliou sua base de patrocinadores com acordos firmados nos últimos anos com empresas como Bank of America, Airbnb e DoorDash.

O crescimento da presença de empresas norte-americanas acompanha a estratégia da FIFA de fortalecer sua operação comercial nos Estados Unidos. De acordo com levantamento da consultoria Ampere Analysis, marcas do país passaram a representar mais da metade das receitas de patrocínio relacionadas à competição.

No Brasil, as oportunidades comerciais vão além dos patrocinadores oficiais. Levantamento da Serasa Experian aponta que cerca de 13,5 milhões de consumidores devem ampliar seus gastos durante o período da Copa. Entre eles, 54,6% demonstram interesse em produtos relacionados ao evento, como itens de moda e licenciados.

A movimentação do consumo também impulsiona investimentos em comunicação. Projeção da Dentsu indica que o mercado publicitário brasileiro deve crescer 9,1% em 2026, impulsionado pela combinação entre Copa do Mundo e eleições. O cenário reforça a competição entre marcas por atenção em um ambiente no qual consumidores transitam entre televisão, plataformas digitais, streaming e redes sociais.

Na prática, as empresas buscam transformar esse potencial de consumo em relacionamento de longo prazo. A Ambev, por exemplo, anunciou ativações em cinco cidades brasileiras durante a competição, com expectativa de reunir mais de 600 mil pessoas em experiências que combinam transmissão dos jogos, entretenimento e interação com o público.

Mas especialistas afirmam que o desafio das empresas vai além da visibilidade gerada pelas partidas.

Em entrevista exclusiva ao Adnews, Gabriel Oliveira, CEO da MOTIM, afirma que a capacidade de transformar audiência em relevância se tornou um dos principais diferenciais das marcas durante grandes eventos.

"Grandes eventos geram atenção. Relevância é o que permanece quando esse momento passa. O desafio não está apenas em conquistar visibilidade, mas em transformar essa exposição em confiança, credibilidade e percepção de valor para a marca", afirma.

Para o executivo, as empresas que conseguem extrair mais valor de eventos de grande alcance são aquelas que utilizam a audiência para fortalecer posicionamento, ampliar a autoridade de seus executivos e ocupar conversas relevantes para seus mercados.

A construção dessa relevância passa pela reputação. Também em entrevista exclusiva ao Adnews, Edvaldo Silva, diretor regional para a América Latina da Zefr, afirma que a confiança continua sendo um diferencial competitivo em um ambiente cada vez mais saturado por mensagens publicitárias.

"A reputação é um dos ativos mais valiosos de uma marca porque influencia diretamente a forma como consumidores, clientes e parceiros percebem valor e confiança. Mesmo quando não existe uma conversão imediata ou facilmente rastreável, a reputação reduz barreiras de entrada, acelera ciclos de venda e aumenta a predisposição à compra", afirma.

Além dos patrocinadores oficiais, a competição também abre espaço para estratégias de marketing de oportunidade. Marcas sem vínculo direto com a FIFA costumam investir em campanhas com atletas, influenciadores e criadores de conteúdo para aproveitar o aumento da atenção do público durante o torneio.

O desafio, porém, não está apenas em alcançar mais pessoas. Segundo relatório da Deloitte sobre tendências globais da indústria esportiva, o consumo de conteúdo está distribuído entre TV aberta, TV paga, streaming, plataformas digitais e redes sociais, exigindo estratégias mais sofisticadas para garantir eficiência dos investimentos.

Nesse cenário, a qualidade do ambiente em que a mensagem é exibida ganha importância crescente.

"O equilíbrio entre escala e proteção de marca não deve ser encarado como uma escolha entre alcance ou segurança. Hoje, as empresas mais bem-sucedidas utilizam inteligência contextual para identificar ambientes que oferecem simultaneamente relevância, segurança e potencial de engajamento", diz Silva.

De acordo com o executivo da Zefr, campanhas que combinam alcance e contexto tendem a gerar resultados mais consistentes.

"Quando as marcas combinam alcance com inteligência contextual, conseguem aumentar a relevância das mensagens, melhorar a eficiência dos investimentos e reduzir desperdícios associados a ambientes inadequados ou pouco alinhados aos seus objetivos."

A discussão ganha relevância em um momento em que o mercado busca equilibrar resultados imediatos e construção de marca. Estimativas da XP Investimentos indicam que setores como varejo, bebidas e alimentação podem registrar crescimento de até 50% nas vendas durante o período da Copa, na comparação com a edição de 2022. Para especialistas, no entanto, o impacto mais duradouro tende a estar na capacidade das empresas de fortalecer atributos de marca e aprofundar o relacionamento com consumidores.

Para Gabriel Oliveira, um dos erros mais comuns das empresas é avaliar reputação apenas por métricas de exposição.

"Alcance mede distribuição e reputação mede confiança. Uma marca pode aparecer em todos os lugares e ainda assim não ser percebida como relevante quando chega o momento de uma decisão de compra, contratação ou parceria", afirma.

Segundo ele, o mercado desenvolveu mecanismos sofisticados para medir impressões, visualizações e alcance, mas ainda dedica menos atenção aos indicadores relacionados à credibilidade e à confiança.

"O que importa não é apenas quantas pessoas ouviram falar da empresa, mas quantas passaram a confiar nela. É essa confiança que fortalece a autoridade dos executivos, influencia decisões e conecta comunicação a resultados de negócio."

Com receitas recordes previstas pela FIFA, crescimento do interesse de patrocinadores e expansão do inventário comercial, a Copa do Mundo de 2026 reforça sua posição como uma das principais plataformas globais de marketing. Em um ambiente de mídia cada vez mais fragmentado, o desafio para as marcas não é apenas aparecer, mas transformar atenção em relevância, confiança e valor de longo prazo.

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