Como Evitar que a IA “Enferruje” o Cérebro

Utilizamos a IA para escrever, resumir, planejar, criar, organizar, sugerir e até mesmo decidir. Nos últimos anos, ela se tornou tão presente quanto é o smarphone e em breve será tão invisível quanto é a eletricidade, o que podemos chamar de computação ubíqua, um dos conceitos mais importantes para entender como certas tecnologias desaparecem da nossa percepção consciente e passam a fazer parte das nossas vidas de forma tão integrada ao ambiente e tão presente que deixam de ser percebidas como tecnologia

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26.05.2026

Como Evitar que a IA “Enferruje” o Cérebro

Por: Fátima Rendeiro

A inteligência artificial entrou definitivamente em nossas vidas. Utilizamos a IA para escrever, resumir, planejar, criar, organizar, sugerir e até mesmo decidir. Nos últimos anos, ela se tornou tão presente quanto é o smarphone e em breve será tão invisível quanto é a eletricidade, o que podemos chamar de computação ubíqua, um dos conceitos mais importantes para entender como certas tecnologias desaparecem da nossa percepção consciente e passam a fazer parte das nossas vidas de forma tão integrada ao ambiente e tão presente que deixam de ser percebidas como tecnologia. Esse fenômeno, originalmente explorado por Mark Weiser na computação ubíqua, ajuda a explicar por que elementos fundamentais da infraestrutura moderna, como a eletricidade, se tornam praticamente invisíveis aos nossos olhos.

“As tecnologias de impacto mais profundo são aquelas que desaparecem. Elas se incorporam à nossa vida cotidiana a ponto de se tornarem imperceptíveis.” Mark Weiser (1952–1999) foi cientista-chefe do Xerox PARC (Palo Alto Research Center), um dos laboratórios mais inovadores do século XX e considerado o pai da computação ubíqua (ubiquitous computing), um conceito que mudou completamente a forma como entendemos a relação entre humanos e tecnologia.

Ferramentas inicialmente estranhas se tornam naturais, e temos uma tecnologia transparente, em que o meio desaparece para que a ação aconteça naturalmente. E é exatamente esse caminho que a inteligência artificial está trilhando. Hoje, ainda falamos “vou usar a IA”, mas em pouco tempo ela estará em absolutamente tudo, deixando de ser percebida como uma tecnologia separada e sim como parte integrante e indispensável das nossas vidas. Mas, à medida que delegamos cada vez mais tarefas cognitivas à IA, uma pergunta inevitável surge: será que estamos deixando nosso cérebro “enferrujar”?

A resposta dos cientistas é que o cérebro não sofre danos estruturais pelo uso da IA, mas podemos, sim, ao longo do tempo, perder a capacidade para executar funções por falta de exercício, ou seja, estamos transferindo nossos processos mentais para a IA.

A resposta científica é mais sutil do que parece. O cérebro não sofre danos estruturais pelo uso de IA, mas pode perder desempenho em funções que deixam de ser exercitadas. Esse fenômeno é conhecido como cognitive offloading, ou terceirização cognitiva, o ato de transferir processos mentais para ferramentas externas. Antes, fazíamos isso com papel, calculadoras e GPS. Agora, fazemos com sistemas generativos capazes de “pensar” por nós.

Recentemente, em um programa de mentoria da Firjan (Federação de Indústrias do Rio de Janeiro), conheci a empresa Cogplus, dedicada a promover a saúde mental e a manutenção das habilidades cerebrais por meio de treinamentos especializados. Ela defende que o cérebro exige cuidados cotidianos e exercícios específicos para evitar o declínio das funções cognitivas ao longo do tempo, garantindo o bom desempenho da mente e a manutenção da qualidade de vida.

A fundadora da Cogplus, Angela Zoé, faz um alerta importante: “O treino cognitivo mantém ativas habilidades como atenção, memória, raciocínio e senso crítico, evitando que você dependa demais da ferramenta para pensar por você. A ideia central é usar a IA como apoio, não como substituta do esforço mental.”

A empresa também disponibiliza um e-book muito interessante, “Sua atenção foi capturada”, que faz uma abordagem prática e reflexiva sobre o hackeamento da atenção humana no mundo digital. Em vez de apenas apontar os problemas, o e-book oferece estratégias concretas para que o leitor recupere o controle sobre seu tempo e seu foco.

No cenário contemporâneo, a facilidade de acesso à informação e a interconexão constante por meio das redes sociais e aplicativos de mensagens transformaram radicalmente a forma como interagimos com o mundo. No entanto, essa evolução tecnológica trouxe consigo um desafio crítico: o impacto direto na nossa cognição, que é o processo pelo qual o cérebro percebe, aprende, armazena e planeja informações. Em tempos de inteligência artificial e algoritmos otimizados para o engajamento, nossa atenção tornou-se o recurso mais disputado.

As cinco funções cognitivas principais são as habilidades que o cérebro utiliza para processar as informações captadas do ambiente através dos sentidos. De acordo com a ciência, elas funcionam da seguinte maneira:

Memória: é a capacidade de armazenar e recuperar informações, ideias ou sensações vivenciadas há poucos segundos ou há muitos anos.

Atenção: consiste na habilidade de manter a concentração, filtrando estímulos, para focar em uma tarefa ou objeto determinado.

Linguagem: é a função responsável pela comunicação e compreensão, permitindo que o indivíduo interaja por meio de palavras, códigos e imagens.

Percepção: funciona como o intérprete dos estímulos recebidos pelos sentidos (olfato, paladar, audição, visão e tato), dando significado àquilo que sentimos.

Funções executivas: são aquelas responsáveis por planejar e organizar ações voltadas para uma meta específica, incluindo a escolha de estratégias adequadas para alcançar um objetivo.

Essas cinco funções trabalham de forma integrada: a cada interação, o cérebro utiliza suas habilidades para promover associações e gerar comportamentos. Assim como o corpo, elas precisam de estímulos e cuidados diários para que a mente permaneça ativa e saudável.

Pesquisadores já demonstraram que, quando delegamos memória ou raciocínio a dispositivos, tendemos a usar menos nossas próprias capacidades internas. O cérebro, como qualquer sistema biológico, opera sob o princípio do use it or lose it: funções pouco utilizadas se enfraquecem. Assim, quando a IA escreve textos inteiros, sintetiza ideias complexas ou toma decisões por nós, reduzimos o esforço cognitivo necessário para manter essas habilidades afiadas.

Esse efeito não é novo, estudos mostraram que, quando sabemos que uma informação está disponível digitalmente, somos menos propensos a memorizá-la. A IA apenas amplifica esse comportamento: se ela pode lembrar, por que eu deveria? Se ela pode criar, por que eu tentaria? Se ela pode decidir, por que eu me esforçaria? O risco maior não é a perda de memória, mas a perda de engajamento cognitivo. A criatividade, por exemplo, depende de frustração, tentativa e erro, exploração e esforço, elementos que a IA tende a eliminar ao entregar respostas prontas. Estudos recentes mostram que conteúdos produzidos com apoio excessivo de IA tendem a ser mais homogêneos, menos originais e menos complexos. A criatividade humana nasce do atrito; a da IA, da síntese estatística.

Outro ponto crítico é a atenção. O córtex pré-frontal, responsável por planejar, comparar, avaliar e organizar, se fortalece com uso contínuo. Quando a IA assume essas funções, o cérebro entra em um modo passivo, semelhante ao consumo de televisão. Daniel Kahneman já descrevia essa tendência: o cérebro prefere caminhos de menor esforço. A IA, ao facilitar tudo, pode nos empurrar para esse estado de economia cognitiva permanente.

Mas nada disso significa que a IA seja inimiga da mente humana. Pelo contrário: quando usada como amplificadora, e não como substituta, ela potencializa nossa capacidade de pensar, criar e aprender. A ciência aponta caminhos claros para evitar o “enferrujamento” cognitivo.

O primeiro é simples: use a IA como copiloto, não como piloto. Deixe que ela sugira, mas faça você mesma a síntese final. O segundo é manter tarefas cognitivas não delegáveis: escrever, planejar, memorizar, resolver problemas simples. O terceiro é praticar active recall, técnica que fortalece memória e raciocínio ao exigir que o cérebro recupere informações sem apoio externo. O quarto é responder mentalmente antes de perguntar à IA, ativando o sistema cognitivo antes de receber ajuda. O quinto é usar a IA para expandir ideias, não para substituí-las. E, por fim, manter treinos cognitivos regulares: leitura profunda, escrita manual, debates, jogos de lógica, aprendizado contínuo.

A IA não rouba nossa inteligência, mas pode atrofiá-la se deixarmos de usá-la. O desafio contemporâneo não é evitar a tecnologia, mas aprender a coexistir com ela de forma saudável. O cérebro humano continua sendo a ferramenta mais poderosa que temos. A IA pode ser sua maior aliada, desde que não se torne sua muleta.

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