Andrea Pitta: a liderança que fez da cultura da empresa o principal diferencial da Fibra.AG

CEO da agência fala sobre empreendedorismo, expansão para a América Latina e explica por que acredita que diversidade só faz sentido quando influencia a forma como as empresas tomam decisões

Andrea Pitta: a liderança que fez da cultura da empresa o principal diferencial da Fibra.AG
Andrea Pitta- Foto de divulgação

Há uma pergunta que acompanha Andrea Pitta durante toda a conversa com o Adnews: o que explica o crescimento da Fibra.AG?

A resposta poderia começar pelos clientes. Em oito anos, a agência conquistou projetos para marcas como Samsung, YouTube, Nestlé, Coca-Cola e TIM, passou a atuar em grandes eventos, como Rock in Rio e The Town, e iniciou uma nova etapa de expansão com a abertura de operações na Argentina e no México. Mas Andrea prefere seguir outro caminho.

Antes de falar sobre faturamento, expansão ou novos mercados, ela fala sobre pessoas. Não por estratégia de discurso, mas porque acredita que foi justamente a forma de construir a empresa que permitiu alcançar os resultados. Para ela, cultura organizacional, liderança e desempenho caminham juntos. Uma decisão influencia a outra. Essa lógica acompanha a executiva desde muito antes da criação da Fibra.AG.

Para ela, empresas crescem quando conseguem reunir diferentes pontos de vista e criar um ambiente em que as pessoas tenham espaço para participar das decisões. Na sua avaliação, diversidade deixa de ser uma pauta de recursos humanos e passa a fazer diferença quando influencia a maneira como uma organização pensa, cria e resolve problemas.

"A mudança mais relevante não é apenas aumentar a representatividade na base, mas criar condições reais para que esses profissionais cresçam, permaneçam e liderem. Ainda existe um longo caminho pela frente, e ele passa por educação, acesso, mentoria e, principalmente, por decisões conscientes de quem já ocupa posições de poder", afirma. A fala resume uma convicção construída ao longo da própria trajetória.

Andrea pertence a um grupo ainda pouco numeroso no mercado brasileiro de comunicação. É uma das poucas mulheres negras a comandar uma agência com atuação nacional e clientes globais. Embora reconheça que o setor avançou nos últimos anos, avalia que as mudanças ainda acontecem em ritmo mais lento justamente onde elas mais importam: nos cargos de decisão.

"Hoje vemos mais mulheres e mais profissionais negros ocupando espaços de visibilidade e liderança. Mas, quando olhamos para os cargos de decisão, especialmente em agências, anunciantes e empresas de tecnologia, ainda estamos longe de refletir a diversidade da sociedade brasileira", diz.

Apesar disso, Andrea evita transformar sua história em uma narrativa sobre obstáculos. Prefere contar como fez suas escolhas e de que maneira elas influenciaram o negócio que construiu.

Antes de empreender, trabalhou na televisão e passou anos na produção executiva de eventos e projetos de comunicação. Foi nesse período que conheceu de perto o funcionamento do mercado, aprendeu a coordenar grandes equipes e desenvolveu uma visão ampla sobre o relacionamento entre marcas e consumidores. Durante muito tempo, imaginou que seguiria essa carreira.

A ideia de abrir uma agência surgiu aos poucos, conforme acumulava experiência e percebia que havia espaço para trabalhar de outra maneira.

"A verdade é que ninguém se sente completamente pronto para empreender", conta. Mais do que criar uma empresa, Andrea queria construir um ambiente que refletisse aquilo em que acreditava como profissional.

"Eu queria construir uma empresa capaz de unir excelência criativa, execução impecável e impacto positivo. Quando entendi que tinha repertório, rede de relacionamentos e uma visão clara de negócio, percebi que era hora de dar esse passo. Foi menos sobre sentir segurança e mais sobre acreditar que eu poderia construir algo relevante para o mercado", lembra.

Essa decisão influenciou também a maneira como a Fibra.AG passou a disputar espaço no mercado. Enquanto muitas agências independentes recorrem ao preço como principal argumento comercial, Andrea optou por outro caminho. A empresa buscaria crescer pela qualidade do trabalho, pelo entendimento dos desafios dos clientes e pela capacidade de executar projetos complexos.

"Nunca competimos apenas por preço. Desde o início, buscamos competir por estratégia, criatividade e capacidade de entrega", afirma. O resultado apareceu ao longo dos anos. A agência ampliou sua carteira de clientes, consolidou presença entre grandes anunciantes e chegou ao momento que Andrea considera um dos mais importantes desde a fundação da empresa: a expansão internacional.

A abertura da operação na Argentina representa o primeiro passo de um projeto voltado para toda a América Latina. O ato seguinte foi a entrada no México, em parceria com a agência local Dover Medios. A experiência, porém, mostrou que crescer para outros mercados exige mais do que repetir um modelo bem-sucedido no Brasil.

Segundo a executiva, cada país possui formas próprias de construir relações comerciais, desenvolver campanhas e dialogar com consumidores. Por isso, internacionalizar significou, antes de tudo, aprender.

"É preciso escutar, aprender e adaptar", resume ao falar sobre o início dessa nova fase da Fibra.AG.

Foi justamente essa disposição para ouvir que também acabou moldando a cultura da empresa.

Foi esse olhar que levou Andrea a construir uma empresa onde diversidade não ocupa um capítulo à parte. Ela aparece na composição das equipes, na escolha das lideranças e na maneira como a agência organiza o trabalho. Para a executiva, não basta contratar pessoas com histórias diferentes. É preciso criar um ambiente em que elas tenham liberdade para participar das decisões e influenciar os rumos da empresa.

"Diversidade só tem valor quando gera transformação concreta", afirma.

Na Fibra.AG, esse princípio se traduz em equipes formadas por profissionais de diferentes gerações, origens, crenças, orientações sexuais e pessoas com deficiência. Andrea acredita que a pluralidade amplia o olhar sobre os desafios dos clientes e torna as soluções mais consistentes.

"Quando você reúne pessoas com experiências diferentes em um ambiente pautado pela escuta e pelo respeito, as ideias ficam mais ricas, as relações mais fortes e os resultados mais consistentes", diz.

Durante a entrevista, uma palavra aparece diversas vezes: escuta. Não como um conceito abstrato, mas como uma prática de gestão. Andrea costuma dizer que boas ideias dificilmente surgem em ambientes onde as pessoas têm receio de discordar, questionar ou propor caminhos diferentes. Essa visão deu origem ao que ela chama de Cultura de Paz, um modelo de liderança baseado no diálogo, no respeito e na construção de relações profissionais saudáveis.

A forma como a agência passou a atuar também reflete esse posicionamento. Nos últimos anos, a Fibra.AG assumiu a comunicação do MOVER – Movimento pela Equidade Racial, coalizão formada por 47 grandes empresas que busca ampliar oportunidades para profissionais negros no mercado de trabalho. Também produziu o Prêmio Sim à Igualdade Racial, do ID_BR, iniciativa que reconhece pessoas, empresas e organizações comprometidas com a promoção da igualdade racial.

A atuação da agência também se estendeu a projetos ligados à sustentabilidade. A Fibra.AG tornou-se signatária do Pacto Global da ONU, participou da comunicação da expedição Voz dos Oceanos, da Família Schurmann, e desenvolveu ações voltadas ao acesso à água potável em parceria com a Coca-Cola Brasil e com o próprio Pacto Global. Embora tenham objetivos diferentes, Andrea vê um ponto em comum entre esses trabalhos. Para ela, comunicação ganha relevância quando acompanha mudanças reais dentro das organizações.

"O mercado amadureceu muito, e o público também. Hoje, as pessoas conseguem identificar quando uma marca está realmente comprometida e quando apenas utiliza determinados temas na comunicação", afirma. Na avaliação da executiva, essa mudança também alterou a forma como as empresas precisam se posicionar. O consumidor passou a observar menos os discursos e mais a coerência entre aquilo que uma marca diz e aquilo que efetivamente faz.

Essa leitura do mercado aparece novamente quando o assunto é inteligência artificial. Andrea reconhece que a tecnologia já mudou a rotina das agências e continuará alterando processos nos próximos anos. Ainda assim, acredita que o principal diferencial do setor continuará sendo a capacidade das pessoas de interpretar contextos, compreender comportamentos e construir ideias relevantes.

"A inteligência artificial já está transformando processos, análises e estratégias, permitindo experiências mais relevantes e eficientes. Mas acredito que o diferencial continuará sendo humano", afirma.

Na sua avaliação, a tecnologia tende a assumir tarefas cada vez mais complexas, mas dificilmente substituirá aquilo que sempre esteve no centro da comunicação: sensibilidade, criatividade e entendimento das pessoas.

Talvez seja por isso que Andrea fale tão pouco sobre crescimento quando descreve o futuro da Fibra.AG. Ao longo da conversa, fica claro que ela mede a evolução da empresa por outros indicadores. Clientes importantes, expansão internacional e projetos de grande porte fazem parte dessa trajetória, mas aparecem quase sempre como consequência de uma forma de liderar que valoriza o trabalho coletivo, a escuta e o desenvolvimento das pessoas. É essa mesma lógica que ajuda a explicar o legado que ela pretende construir.

Andrea costuma dizer que a educação mudou o destino de sua família. A frase ajuda a entender não apenas sua trajetória, mas também a maneira como enxerga o papel da liderança.

Filha de uma professora e de um médico que pertenceu à primeira geração de médicos negros do país, cresceu em um ambiente onde estudar nunca foi visto apenas como um caminho para construir uma carreira. Era, sobretudo, uma forma de ampliar oportunidades e romper barreiras que, durante muito tempo, limitaram o acesso da população negra a espaços de decisão.

Mesmo assim, a realidade fez questão de mostrar que a formação, por si só, não eliminava todas as desigualdades. Ao longo da carreira, Andrea percebeu que, muitas vezes, precisava apresentar resultados de forma mais consistente para conquistar a confiança que outros profissionais recebiam com maior facilidade.

"Sem dúvida. Em diferentes momentos da minha trajetória, percebi que precisava apresentar resultados de forma ainda mais consistente para conquistar o mesmo nível de confiança que muitas vezes era concedido automaticamente a outras pessoas", afirma.

Hoje, ela olha para essa experiência com menos foco nas dificuldades e mais na responsabilidade que acompanha quem ocupa posições de liderança.

"Com o tempo, aprendi que ocupar espaços também significa abrir caminhos para quem vem depois. Hoje, mais do que provar algo, meu foco está em construir oportunidades e ampliar referências para novas gerações", diz.

Essa talvez seja a principal diferença entre a Andrea que iniciou a carreira na televisão e a executiva que hoje lidera uma das principais agências independentes de brand experience do país. Se antes a preocupação estava em conquistar espaço, agora ela se concentra em criar condições para que outras pessoas também consigam chegar até ele. Quando questionada sobre o legado que gostaria de deixar para o mercado de comunicação, a resposta não passa pelas campanhas que realizou nem pelas marcas que atende.

Ela fala das pessoas. "Quero que a Fibra.AG seja reconhecida não apenas pelos projetos que realizou, mas pelas pessoas que formou e pelas oportunidades que criou", afirma.

A executiva diz que gostaria de ser lembrada como alguém que contribuiu para tornar o mercado mais diverso e mais aberto a diferentes trajetórias. Um ambiente em que mulheres, pessoas negras e profissionais de origens distintas possam ocupar posições de liderança sem que isso ainda seja tratado como exceção.

Ao longo da entrevista, Andrea fala sobre inteligência artificial, internacionalização, gestão, criatividade e crescimento. São temas inevitáveis para quem está à frente de uma agência em expansão. Ainda assim, a impressão que fica ao final da conversa é que nenhum deles ocupa o centro de sua atuação. Seu principal projeto parece ser outro.

Construir uma empresa que continue crescendo sem perder a capacidade de ouvir, formar pessoas e criar um ambiente onde diferentes experiências tenham espaço para participar das decisões.

Talvez seja essa a principal marca da Fibra.AG e da liderança de Andrea Pitta. Em um mercado acostumado a medir sucesso por faturamento, tamanho das contas ou expansão geográfica, ela insiste em lembrar que empresas são feitas, antes de tudo, por pessoas. E que a forma como essas pessoas são tratadas costuma dizer muito mais sobre uma organização do que qualquer campanha publicitária.

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