A bolha que talvez não exista
Falar em “bolha da inteligência artificial” virou quase um ritual coletivo.
16.10.2025

Há quem veja exagero, há quem veja revolução. Mas talvez o erro esteja na pergunta. Porque o que estamos vivendo agora não é uma bolha como a das ponto com. É outra coisa. Algo mais profundo, mais ambicioso, e talvez mais perigoso também.
Na virada dos anos 2000, a internet prometia transformar o mundo e de fato transformou. Mas a promessa era simples: comércio eletrônico, serviços digitais, conveniência. Hoje, as apostas são outras. O que está em jogo não é só conveniência, é a própria condição humana. Falamos de cura de doenças, de aumento radical de produtividade, de singularidade tecnológica e, quem sabe, de uma nova forma de inteligência convivendo conosco.
A diferença de escala entre as duas eras é brutal. Na bolha ponto com, o sonho era comprar online. Na bolha da IA, o sonho é entender o universo.
Entre o hype e a história
É tentador comparar valuations e achar que enlouquecemos de novo.
Mas há uma diferença essencial: hoje, o valor não está no vapor. Está nos resultados. Pela primeira vez, máquinas estão fazendo descobertas científicas reais. Modelos como o GPT-5 erram menos, alucinam menos, raciocinam com coerência e começam a formar uma base estável para os companions, esses agentes que viverão conosco. E modelos como o Sora 2, da OpenAI, já não são apenas um gerador de vídeo. É um gerador de mundos. Ele entende física, movimento, textura, luz. Sabe como um corpo cai, como uma explosão se comporta, como o som reverbera no espaço. Isso não é truque gráfico. É simulação de realidade. Se antes criávamos imagens, agora criamos universos. Como chamar isso de bolha?
A aposta e o risco
Sim, há exageros. Sempre há.
Talvez uma startup que faz código assistido por IA realmente não valha bilhões. Talvez algumas estejam infladas por narrativas mais do que por entregas. Mas há algo novo acontecendo: agora, as apostas não são só financeiras, são civilizacionais. Veja o caso de Ilya Sutskever e Daniel Levy, que deixaram a OpenAI para criar a Safe Superintelligence Inc. Eles captaram bilhões com uma promessa no PowerPoint: construir uma AGI (inteligência artificial mais inteligente que um ser humano) realmente alinhada aos valores humanos. Pode parecer delírio, mas se conseguirem, o impacto seria tão grande que qualquer valuation atual pareceria troco. Não dá pra medir esse tipo de risco com a régua do EBITDA. Estamos apostando no código-fonte do futuro.
O ROI invisível
Quem fala em bolha geralmente fala de retorno: “investem muito, colhem pouco”. Mas talvez o problema não seja o investimento, e sim onde ele é medido. Nos Estados Unidos, a IA ainda vive em laboratórios e startups de elite. Na China, ela vive nas ruas. Lá, a inteligência artificial está em tudo: semáforos, câmeras, caixas eletrônicos, vending machines. É onipresente, pragmática, barata. Enquanto o Vale do Silício debate papers, a China implementa. E isso muda tudo: porque ROI não vem do que é genial, vem do que é usado. A China entendeu isso antes de todos. O futuro talvez não pertença a quem cria os modelos mais sofisticados, mas a quem cria ecossistemas onde esses modelos respiram.
O que estamos realmente construindo
Não há bolha no sentido clássico, porque há substância. Mas também não há garantia de que chegaremos ao destino certo. O que existe é uma corrida entre o potencial e o discernimento. Talvez este seja o momento mais perigoso da história da tecnologia: aquele em que os resultados parecem mágicos, mas ainda não temos maturidade emocional, ética ou social para lidar com eles. Não estamos em uma bolha, mas sim empresas como OpenAI, Anthropics ou Grok podem ficar pelo caminho se o mercado decidir que há uma bola e parar de financiar.
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