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30/12/2008

Joseph Calderaro, 67, faz parte das histórias de sucesso silenciosas do sistema de saúde. Nos últimos quatro anos, ele conseguiu diminuir o açúcar no sangue, a pressão sangüínea e o colesterol com dieta, exercício e medicamento.
Para acompanhamento, Calderaro visita seu médico, freqüenta reuniões de pacientes com diabetes e sempre recebe ligações de um consultor de saúde. É um esforço de equipe, orquestrado pela clínica Marshfield. E revigorado pela tecnologia, começando pelo registro de paciente computadorizado de Calderaro - um documento continuamente atualizado que inclui seu histórico médico, remédios, testes de laboratório, orientações de tratamento e observações de médicos e enfermeiras.
Visitar a clínica Marshfield, há tempos inovando na tecnologia da informação para saúde, é ter um vislumbre do futuro da medicina digital. Na área das políticas de assistência médica nacionais existe amplo consenso de que transferir os registros de pacientes do papel para o computador, da forma que Marshfield e alguns outros sistemas de saúde já fazem, é essencial para melhorar a qualidade do atendimento e conter custos.
O registro no papel é um documento passivo e histórico. Já o registro médico eletrônico pode ser uma ferramenta vibrante que lembra e assessora médicos. Ele pode manter informações sobre consultas, tratamentos e condições, retornando anos, e até mesmo décadas. Pode ser acionado com um clique, ao invés de permanecer escondido num arquivo em algum lugar remoto, portanto inútil durante emergências médicas.
Os modernos sistemas computadorizados possuem links para informação online a respeito das melhores práticas, tratamentos, recomendações e de combinações nocivas de drogas. Os benefícios potenciais incluem menos testes desnecessários, redução de erros médicos, e melhores cuidados para que os pacientes necessitem menos de custosos tratamentos hospitalares.
A ampla adoção de registros médicos eletrônicos também pode fornecer mais evidências para a pesquisa médica. Cada registro de paciente é adicionado em tempo real a um banco de dados em constante crescimento de evidências sobre o que funciona ou não. O objetivo é aproveitar a informação da saúde de indivíduos e populações, compartilhá-la em redes, peneirá-la e analisá-la para tornar a prática da medicina mais uma ciência e menos uma perícia.
O governo Bush deixou a medicina digital principalmente nas mãos de grupos de interesse e do setor privado. Mas o presidente-eleito Barack Obama aparentemente planeja assumir um compromisso considerável quanto ao assunto. Durante a campanha, Obama prometeu gastar US$ 50 bilhões em cinco anos para disseminar a adoção dos registros médicos eletrônicos. E disse recentemente que um programa de governo para acelerar seu uso faria parte do pacote de estímulo econômico.
A clínica Marshfield, um grande grupo médico em Wisconsin, mostra que os registros médicos podem de fato melhorar a qualidade e eficiência da medicina. Porém, a experiência da clínica sugere que o registro se torna realmente útil apenas quando a informação do paciente é agregada e explorada para encontrar padrões e responder perguntas: quais tratamentos funcionam melhor para cada categoria particular de pacientes? Quais práticas médicas ou procedimentos cirúrgicos geram o melhor resultado?
A clínica Marshfield "entende que um sistema de melhorias possibilitadas pela tecnologia é o que realmente importa, e o registro médico eletrônico não é em si uma solução milagrosa," disse a doutora Carolyn M. Clancy, diretora da Agência Federal para Pesquisa e Qualidade na Saúde. "A armadilha para as políticas é pensar que instalar computadores e softwares nos consultórios vai, por si só, transformar o sistema de saúde."
Para o futuro presidente e seu governo, o desafio será ligar de alguma forma essas ilhas médicas eletrônicas a uma rede de informação que comece a realizar em escala nacional o que organizações médicas como Marshfield já alcançaram regionalmente. Então, idealmente, um médico solitário de uma comunidade rural poderia se conectar à rede de informações de saúde nacional e ficar tão bem informado a respeito de tratamentos e pesquisas para pacientes com certas condições quanto um especialista em Marshfield.
Alguns especialistas alertam que uma capacidade tão ampla de compartilhamento de registros poderia levar décadas para ser alcançada - se isso for mesmo possível no descentralizado e competitivo mercado médico americano.
A clínica Marshfield, uma organização sem fins lucrativos fundada em 1916, tem uma longa história no uso de tecnologia da informação para promoção de pesquisas e melhorias de tratamento. Nos anos 1960, a clínica comprou a revolução digital da época - um computador central - e usava cartões perfurados para alimentá-la com informações sobre diagnósticos e procedimentos. Em 1985, a clínica introduziu seu primeiro registro médico eletrônico básico, que foi refinado e, em 1994, tornado obrigatório para todos os seus médicos. Em 2003, a clínica introduziu pranchetas eletrônicas sem fio, cuja tela podia ser usada como um papel digital, ou como um laptop convencional com auxílio de um teclado.
Hoje, todos os seus 790 médicos e equipes de apoio espalhados em 43 localidades de Wisconsin utilizam a prancheta digital. No final do ano passado, o grupo eliminou os prontuários de papel para os mais de 365 mil pacientes atendidos todos os anos, liberando um espaço de armazenamento do tamanho de um campo de futebol americano na clínica principal em Marshfield. Em cada passo rumo ao sistema completamente digital, os médicos foram consultados e envolvidos no processo.
"Foi uma jornada fabulosa, com médicos antes relutantes e que agora não conseguem viver sem essa tecnologia," observou o doutor Karl J. Ulrich, chefe-executivo da clínica.
Mashfield é um entre dezenas de grupos médicos do país que está abraçando agressivamente a tecnologia da informação. As organizações tendem a ser grandes - de instituições com milhares de médicos, como Kaiser Permanente e Department of Veterans Affairs, a outras com apenas centenas, como Mashfield e Geisinger Health Systems, no centro da Pensilvânia. Elas normalmente são responsáveis por todos os aspectos dos cuidados com o paciente. E geralmente também são companhias de seguro.
Tradução: Amy Traduções - The New York Times
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